Desejos Reais para Crianças Virtuais
Quantas vezes ouvimos falar que no mundo virtual as pessoas
se transformam?
Pessoas tímidas, introvertidas, na escuridão dos
processadores, transformam-se em pessoas violentas, intolerantes, usam do
anonimato para liberar a agressividade das suas almas.
Pessoas violentas, impacientes, esfriam suas cabeças no
mundo dos bits e bytes e passam uma imagem diferente daquela que seu
comportamento na vida cotidiana transmite.
Longe de mim julgar quem verdadeiramente é aquela pessoa
real, mas uma grande dúvida que tenho tido é em relação às gerações que nascem
sob o domínio.com.br. Se para minha geração (e algumas antes e algumas depois)
o mundo virtual é diferente do mundo real, o que pensarmos em relação às
gerações mais novas?
Terão elas uma visão de que há uma vida real e uma vida
virtual? E sendo assim saberão distinguir no outro o lado real e o virtual? Ou
o real e o virtual serão um mundo único? Sendo desta forma, as pessoas se
mostrarão e entenderão as outras mais completamente? Ou não será nada disso,
será algo inteiramente inimaginável?
Não tenho a menor idéia! Mas sinto que o experimentar está
aos poucos sumindo de um mundo cada vez mais isolado pelas telas de
equipamentos eletrônicos.
Não sei quanto a você, leitor, mas eu sinto muitas vezes uma
inveja de quando pessoas mais velhas contam seus “causos” e recuperam suas
memórias de tempos vividos na experimentação de uma roça, à beira de um fogão
de lenha, subindo em árvores, ouvindo pássaros cantar. Invejo quando leio um
poema em que eu chego bem próximo de entender o poeta!
Digo bem próximo porque não vivi isso inteiramente. Nasci na
cidade, meus pais no interior, então, férias eram curtidas na Lage, fazenda do
meu avô; ou no Rancho Guanabara, pesqueiro do meu pai. Nestes lugares eu
experimentava, ainda que timidamente, as coisas gostosas que o mundo oferecia
e, usando meus sentidos, abria um túnel invisível para brotarem minhas emoções.
Ver, sentir, amar, saborear... tudo isso era vivido e não apenas lido!
Ontem, em uma palestra que fomos eu e minha esposa, a
palestrante em certa hora questionou que mundo estamos deixando para nossas
crianças... Depois da manifestação dos ouvintes, ela concluiu com uma citação
de algum psicólogo famoso (eu não me lembro nem da citação e nem do autor).
É, acho que é isso, estamos deixando para nossas crianças um
mundo de frases e citações (e essa é mais uma delas). Também pudera, se é de
olho na tela que eles vivem, nada mais lógico que encher a cabeça deles com
frases e mais frases.
O problema é que frases fora de contextos, citações sem
experimentações não ajudam a formar a psique complexa de um ser humano. Não
vira uma colcha de retalhos, pois esta tem sua beleza e seu encanto, mesmo
formado de pedaços de panos velhos. Eles irão Copiar e Colar, mas será que a
nova sociedade vai “colar”?
É preciso enriquecer as nossas crianças com experiências,
com vivências, com interações, com sentimentos REAIS. As crianças precisam ver,
ouvir, tocar, sentir, saborear. Precisam experimentar a frustração, precisam
desejar intensamente algo.
Hoje, alguns pais tem condição de dar muitas coisas para
seus filhos. Nem que seja uma lembrancinha pequena, como símbolo de carinho,
todo dia chega o pai ou a mãe com uma. Um brinquedinho, uma roupinha, um
enfeitinho. Questiono se aquilo que é,
com certeza, um gesto de carinho faz tão bem assim para as crianças. Como diz
Gabriel Chalita em Cartas entre amigos, “os desejos são atendidos antes mesmo
de serem gestados. E as crianças vão se tornando enfadonhas.”
Antes desejávamos muito e por muito tempo até conseguir algo.
Hoje não deixamos nossas crianças desejarem nada! Como será que isso se reflete
na formação dessas crianças?
Parece-me isso, as crianças, talvez por não exercitarem seus
sentidos, não conseguem mais abrir o túnel invisível para suas emoções. Será
que é por isso que já não existem mais um doce carinho pela boneca amiga ou
pelo carrinho companheiro? São tantas bonecas e tantos carrinhos que são guardados
dentro do armário que tudo virou descartável.
E como esse comportamento irá refletir nas relações
amorosas, nos sonhos, no ambiente de trabalho, na política? O mundo que deixaremos
para nossas crianças nos dirá!
Muito bom, Leo!
ResponderExcluirObrigado, Ronaldinho!
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